O Brasil perdeu neste sábado (30) um de seus maiores cronistas e escritores contemporâneos. Luís Fernando Verissimo, filho do romancista Érico Verissimo, morreu aos 88 anos em Porto Alegre (RS). Autor de mais de 80 livros, ele se consolidou como uma das vozes mais populares e originais da literatura nacional, reconhecido pelo humor ácido, pelo olhar irônico sobre o cotidiano e pela habilidade de retratar a sociedade brasileira em textos curtos, acessíveis e profundos.
Verissimo enfrentava uma trajetória de saúde fragilizada na última década. Em 2020, passou por cirurgia para retirada de um câncer ósseo na mandíbula. No ano seguinte, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) que o afastou definitivamente da escrita e deixou sequelas severas. Já diagnosticado com doença de Parkinson, o escritor também recebeu um marca-passo no coração em 2022. Nos últimos anos, não falava mais e vivia em casa ao lado da esposa, a carioca Lúcia Helena Massa, com quem foi casado por mais de 60 anos.
Da publicidade ao jornalismo e à literatura
A carreira literária de Verissimo começou de forma paralela a outros ofícios. Trabalhou como tradutor de inglês, redator publicitário e jornalista. Na agência MPM, foi responsável por campanhas premiadas para grandes marcas brasileiras. No jornal Zero Hora, onde atuou como copidesque, deu os primeiros passos como cronista, escrevendo no caderno de variedades — à época apelidado de “frescuras” —, onde sua imaginação encontrou espaço para sátira, ironia e crítica de costumes.
Foi em 1971 que seu talento chegou ao grande público, quando a editora José Olympio publicou “O Popular”, coletânea de crônicas que se tornou seu primeiro grande sucesso nacional.
Humor como marca registrada
Sua obra transitou entre gêneros, mas as crônicas e os contos humorísticos foram sua marca registrada. Nos anos 1970, criou personagens que entraram para o imaginário brasileiro, como o atrapalhado detetivo Ed Mort, a irreverente Dorinha, a crítica Velhinha de Taubaté (apresentada como a única brasileira a acreditar nos generais da ditadura) e “As Cobras”, cujas tirinhas misturavam humor gráfico e reflexão social.
Em 1981, lançou aquele que seria seu maior sucesso editorial, “O Analista de Bagé”, obra que esgotou em apenas dois dias nas livrarias e se tornou um fenômeno cultural. O personagem, um psicanalista gaúcho adepto de métodos nada ortodoxos, permanece até hoje como um dos símbolos da sátira de Verissimo.
Reconhecimento e prêmios
Ao longo de sua carreira, Verissimo conquistou prêmios e distinções relevantes. Foi vencedor do Prêmio Jabuti em diferentes categorias e, em 2004, recebeu o Prix Deux Océans, no Festival de Culturas Latinas de Biarritz, na França. Em 2013, sua obra “Diálogos Impossíveis” foi eleita o melhor livro de ficção do Jabuti.
Sua presença também se expandiu para além da literatura. Em 2014, foi homenageado pela escola de samba Imperadores do Samba, de Porto Alegre, campeã do carnaval daquele ano com enredo inspirado em seus personagens. No ano seguinte, colaborou com a dupla Kleiton e Kledir no disco “Com Todas as Letras”, assinando a letra de “Olho Mágico” e tocando saxofone na gravação.
Engajamento político
Mesmo na velhice, Verissimo manteve engajamento ativo nos debates políticos do país. Em 2018, escreveu o prólogo do livro “A Verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam”, do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dois anos depois, foi um dos signatários dos manifestos “São Paulo precisa de Boulos e Erundina” e “Juntos pela Democracia”, que reuniram milhares de intelectuais e artistas em defesa de pautas democráticas e progressistas.
Paixão pela música e vida pessoal
Antes da literatura, Verissimo sonhou ser músico. Na adolescência, inspirado por Louis Armstrong, queria tocar trompete, mas acabou se tornando saxofonista, à semelhança de Charlie Parker, já que era o instrumento disponível na escola em que estudava em Washington. Durante a juventude, integrou bandas locais em Porto Alegre, tocando em festas de debutantes, e mais tarde fundou o grupo Jazz 6, que, apesar do nome, tinha apenas quatro integrantes e se apresentava com frequência.
Casado com Lúcia Helena, teve três filhos: Pedro, Fernanda e Mariana. Apesar da fama, manteve um estilo de vida discreto, dividido entre a casa em Porto Alegre — a mesma onde seu pai escreveu a trilogia “O Tempo e o Vento” — e apartamentos no Rio de Janeiro e em Paris.
Legado
Verissimo será lembrado como um autor que traduziu, com humor e ironia, as contradições da sociedade brasileira. Suas crônicas, muitas vezes escritas em tom coloquial e com finais surpreendentes, conquistaram leitores de todas as idades e classes sociais, fazendo dele um dos escritores mais lidos do país.
Com personagens inesquecíveis, diálogos ágeis e uma prosa que transitava entre a leveza do humor e a densidade da crítica social, Luís Fernando Verissimo deixa um legado incontornável na literatura brasileira.
