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"EFEITO TRUMP" REDUZ TRAVESSIAS DE BRASILEIROS NA FRONTEIRA COM OS EUA, MAS MIGRANTES AINDA VEEM ALTERNATIVA VIÁVEL

Com a suspensão de pedidos de asilo e receio de repressão, brasileiros em rota migratória optam por aguardar no México ou buscar permanência no país vizinho
BRASIL37 17/07/2025 15:29 Hs
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A intensificação do discurso anti-imigração do ex-presidente Donald Trump, já durante a campanha eleitoral e reafirmado após sua vitória nas urnas, provocou um recuo significativo no número de brasileiros tentando atravessar a fronteira do México com os Estados Unidos. Dados das autoridades americanas apontam que, entre outubro e dezembro de 2024, menos de mil brasileiros foram apreendidos na fronteira. Em janeiro de 2025, esse número caiu para menos de 500.

A queda no fluxo coincide com a suspensão do aplicativo CBP One, utilizado para agendar pedidos de asilo, e com o aumento das deportações promovidas ainda durante o governo Biden. No entanto, migrantes brasileiros e seus familiares — muitos dos quais com filhos nascidos no Brasil ou nos EUA — ainda veem a rota como uma alternativa possível diante da dificuldade de obtenção de vistos consulares.


Do interior de São Paulo à fronteira mexicana


O haitiano Jean (nome fictício), 55, vive hoje em um abrigo na cidade de Matamoros, na fronteira com o Texas. Ele deixou o Brasil em dezembro de 2024 após mais de uma década vivendo e trabalhando como pedreiro em Indaiatuba (SP). Insatisfeito com o custo de vida crescente e incentivado por um parente, decidiu buscar melhores condições nos Estados Unidos, levando consigo a esposa e dois filhos brasileiros.

Ao chegar à fronteira, Jean conseguiu se cadastrar para uma audiência de asilo no início de fevereiro, mas a consulta foi cancelada abruptamente, frustrando suas expectativas. "Vendi tudo que tinha. Não tenho como voltar ao Brasil agora", afirmou à Folha.

A família descarta atravessar irregularmente o rio Grande. A estratégia, por ora, é aguardar eventual reabertura dos canais formais de solicitação de refúgio. Caso contrário, Jean pretende buscar documentos legais no México, matricular os filhos na escola e buscar trabalho em outra cidade mexicana.


Pressão migratória e estatísticas


Embora o número de brasileiros interceptados tenha recuado recentemente, a fronteira terrestre tornou-se, nos últimos anos, uma via crescente de entrada de nacionais no território americano. Segundo estudo do Migration Policy Institute (MPI), as apreensões de brasileiros pela patrulha fronteiriça saltaram de 3.100 em 2016 para 57 mil em 2021. A tendência levou o México a restabelecer a exigência de visto para brasileiros em 2022.

Ainda de acordo com o MPI, havia 286 mil brasileiros em situação migratória irregular nos EUA em meados de 2023, representando a 7ª maior população indocumentada do país. O principal modo de ingresso, no entanto, continua sendo a permanência após o vencimento do visto de turista — condição de aproximadamente 70 mil brasileiros em 2023, segundo documento oficial enviado ao Congresso americano.


A fronteira do México com os EUA vista de um helicóptero dos agentes da região - Adriana Zehbrauskas/The New York Times


Mudança de perfil e expectativa com novo governo


Para a professora Gabrielle Oliveira, da Universidade Harvard, que estuda os fluxos migratórios brasileiros, a maior procura pela fronteira está associada à restrição crescente na concessão de vistos formais:

“Muitos brasileiros que antes conseguiam visto de turista agora estão sendo negados. Isso tem levado mais pessoas a buscarem rotas terrestres, mesmo com os riscos envolvidos.”

Em Reynosa, outro ponto de fronteira visitado pela Folha, o padrão se repete: abrigos abrigam famílias haitianas com filhos brasileiros, que optam por aguardar um cenário político mais favorável. A expectativa entre os migrantes é de que a gestão Trump — caso retome a Casa Branca — possa reverter parcialmente as restrições, reabrindo algum canal de asilo ou migrando para soluções de permanência temporária.


Riscos, frustrações e esperança


Ainda que o "efeito Trump" tenha momentaneamente reduzido as tentativas de travessia, o desejo de migrar persiste entre os brasileiros, especialmente aqueles em situação econômica vulnerável no Brasil ou em países de trânsito como o México.

“Meu pensamento é trabalhar, fazer dinheiro e voltar para o Brasil e comprar uma casa”, resume Jean, evidenciando a interseção entre migração, sobrevivência econômica e reconstrução de projetos de vida que marcam o fluxo migratório atual.



Foto Principal: Julia Chaib/Folhapress

Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO