Sociedade

IA já está presente na rotina de 84% dos advogados latino-americanos

Levantamento da Thomson Reuters revela uso disseminado da tecnologia, mas alerta para vazamento de dados, respostas incorretas e perda da capacidade crítica

IA já está presente na rotina de 84% dos advogados latino-americanos

O uso da inteligência artificial tornou-se parte do cotidiano da advocacia na América Latina. De acordo com um recorte regional do estudo Future of Professionals 2026, realizado pela Thomson Reuters, 84% dos integrantes do setor jurídico utilizam recursos de IA pelo menos uma vez por semana. As informações são do jornal Valor.


Embora a pesquisa abranja toda a região, os resultados refletem principalmente o cenário brasileiro. Rodrigo Hermida, vice-presidente do segmento de Legal Professionals para a América Latina na Thomson Reuters, explica que isso ocorre devido à maior participação estatística de brasileiros entre os entrevistados.


A disseminação da tecnologia, contudo, não foi acompanhada pela oferta de sistemas adequados ao exercício da profissão. Somente 48% dos participantes têm acesso a soluções desenvolvidas especificamente para o ambiente corporativo. Outros 34% admitiram já ter recorrido a plataformas de IA sem a autorização das organizações em que trabalham, prática conhecida como “shadow AI”.


O comportamento acende um alerta para a segurança das informações. Ao inserir dados de clientes ou detalhes de processos em serviços abertos, o advogado pode expor conteúdo protegido e comprometer o dever de confidencialidade previsto no Estatuto da Advocacia.


Também preocupa o uso irregular de “prompt injection”. A técnica consiste em inserir comandos ocultos em documentos para interferir na inteligência artificial empregada por tribunais ou pela parte contrária, com o propósito de influenciar a produção de petições, análises ou decisões.


A contenção dessas ameaças depende, em grande medida, dos próprios escritórios. A busca por programas externos costuma ocorrer quando os recursos internos não conseguem atender às demandas diárias. Uma das alternativas apontadas é organizar as informações processuais em bases de dados próprias, reduzindo a necessidade de alimentar repetidamente serviços de uso geral.


Erros persistem em sistemas especializados

A adoção de programas voltados exclusivamente ao Direito não elimina a possibilidade de respostas falsas ou imprecisas.


Pesquisa conduzida pela Universidade de Stanford e publicada no Journal of Empirical Legal Studies em 2025 comparou três sistemas jurídicos norte-americanos com o GPT-4. O modelo de uso geral apresentou alucinações em 43% das respostas. Entre as soluções especializadas, o índice variou de 17% a 33%.


Os resultados demonstram que a revisão humana continua indispensável. Mesmo quando os argumentos produzidos estão tecnicamente corretos, eles podem ser pouco relevantes para o caso concreto ou não manter relação lógica com os fatos discutidos.


Outro efeito associado à automação é a chamada “preguiça cognitiva”. A entrega de textos praticamente prontos pode reduzir o esforço de análise e enfraquecer a capacidade crítica do usuário. Sem conferência contextual e mecanismos rigorosos de controle, a qualidade do trabalho tende a cair.


Expectativas ainda não são atendidas

O estudo também identificou uma distância significativa entre aquilo que os advogados esperam da IA e o que os sistemas conseguem oferecer atualmente. Para 87% dos participantes, essa diferença existe. Além disso, 26% considerariam deixar seus escritórios nos próximos dois anos caso a organização não consiga reduzir a lacuna.


A insatisfação atinge principalmente quem se encontra no meio da carreira. O impacto é maior entre integrantes do chamado “back-office” de grandes bancas, responsáveis por providências como pedidos de pagamento, cumprimento de decisões e outras tarefas práticas que vêm sendo automatizadas.


Algumas firmas passaram a direcionar esses trabalhadores para atividades que demandam maior elaboração técnica e intelectual. A avaliação é de que as funções operacionais devem representar uma etapa de formação, e não uma posição permanente capaz de limitar o desenvolvimento da carreira.


Cenário brasileiro

Os números da Thomson Reuters se aproximam dos resultados de uma pesquisa divulgada em julho pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP). O levantamento mostrou que 87,4% dos advogados brasileiros já recorrem à inteligência artificial no trabalho, enquanto 84,3% relatam ganhos de produtividade.


Ao mesmo tempo, 85,3% defendem capacitação específica para o uso desses recursos. Outros 90,3% consideram que soluções elaboradas especialmente para o Direito brasileiro são mais seguras e eficientes do que programas de finalidade geral.


Especialistas sustentam que a incorporação da IA não deve ser tratada como um objetivo isolado. Antes de escolher um sistema, as bancas precisam definir qual problema pretendem resolver, seja a busca por eficiência, rapidez ou escala. A análise estratégica inicial é apontada como necessária para reduzir falhas e assegurar que a tecnologia responda às necessidades reais da atividade jurídica.


Tecnologia não substitui formação jurídica

“A inteligência artificial já ocupa um espaço importante na advocacia e pode contribuir muito para a pesquisa, a organização de informações e a execução de tarefas que antes consumiam um tempo excessivo das equipes. Mas ela não substitui o conhecimento jurídico, a experiência e a capacidade de compreender as particularidades de cada caso", comenta o advogado Bruno Roger Ribeiro, sócio do Escritório Mattozo & Ribeiro. "Isso é ainda mais evidente em áreas intrincadas, como o Direito Administrativo e o Direito Constitucional, nas quais uma resposta tecnicamente plausível nem sempre é adequada à situação concreta. A qualidade do trabalho continua dependendo da análise crítica, da construção da tese e do domínio dos fundamentos jurídicos", completou.


Para Ribeiro, da mesma forma que é preciso entender melhor as ferramentas e aproveitar suas potencialidades, é preciso conservar atenção com a capacitação teórica dos profissionais. Não à toa ele fundou, dirige e é professor no Instituto Pontes de Miranda, criado justamente para contribuir com o aperfeiçoamento e a formação continuada de juristas, em um momento no qual a atualização permanente se tornou indispensável. O avanço tecnológico reforça essa necessidade, porque exige profissionais preparados não apenas para utilizar novos recursos, mas também para avaliar criticamente o conteúdo produzido por eles.


Foi diante dessas transformações que o Escritório Mattozo & Ribeiro, especializado em Direito Administrativo e Constitucional, desenvolveu seu projeto de residência jurídica. "A proposta é valorizar e formar profissionais desde o estágio, permitindo que jovens talentos conheçam a filosofia de trabalho da banca e sejam inseridos gradualmente em uma rotina de produção técnica, estudo e discussão de casos. Também consideramos imprescindível preservar o contato humano entre as equipes. É na convivência profissional, na troca de experiências e no debate sobre estratégias e fundamentos que muitas vezes se alcança uma compreensão mais precisa do processo. Essa interação melhora a qualidade do trabalho desenvolvido e não pode ser substituída por qualquer sistema. A tecnologia deve ampliar a capacidade do advogado, e não enfraquecer sua formação nem tornar a atividade jurídica um exercício solitário e automatizado", finalizou.