Justiça Federal

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL REITERA ASSÉDIO JUDICIAL DE IGREJA CONTRA LIBERDADES DE EXPRESSÃO E DE IMPRENSA

Ação busca responsabilizar Igreja Universal por apresentar, de forma orquestrada, quase 150 processos contra jornalista em 19 estados

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL REITERA ASSÉDIO JUDICIAL DE IGREJA CONTRA LIBERDADES DE EXPRESSÃO E DE IMPRENSA

O Ministério Público Federal (MPF) apresentou réplica na ação civil pública contra a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) por assédio judicial em razão de pulverização de ações contra o jornalista João Paulo Cuenca em todo o Brasil. O caso, que tramita na 28ª Vara Federal do Rio de Janeiro, é considerado emblemático para a defesa da liberdade de imprensa no Brasil. O MPF ressalta que foram violadas as liberdades de expressão e de impressa, além do acesso à justiça e da movimentação indevida da máquina judiciária.


A manifestação do MPF contesta a tese da Universal de que as mais de cem ações ajuizadas por seus pastores seriam fruto de uma “mobilização espontânea”. Segundo o MPF, além da responsabilidade objetiva da igreja pela atuação de seus pastores, nos termos de jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a organização centralizada e hierárquica da igreja permite afastar a tese de que teria havido uma mobilização espontânea.


Além disso, a apuração constatou que a padronização das petições (62 das 144 ações usaram o mesmo modelo) e a concentração temporal das demandas entre julho e outubro de 2020, em 19 estados diferentes, indicam que houve uma orquestração para constranger e silenciar o jornalista.


Assédio judicial


O Supremo Tribunal Federal (STF) já reconheceu a gravidade do assédio judicial, definindo-o como “o ajuizamento de inúmeras ações a respeito dos mesmos fatos, em comarcas diversas, com o intuito ou o efeito de constranger jornalista ou órgão de imprensa, dificultar sua defesa ou torná-la excessivamente onerosa”. O caso de Cuenca foi citado pelo STF como exemplo da prática.


Por outro lado, a Universal alega que não houve dano jurídico porque muitas ações não avançaram. No entanto, na avaliação do MPF, o fato de muitos dos processos não terem avançado é um fator que evidencia o assédio judicial, e não o afasta. “Ao espalhar ações e gerar um clima de insegurança jurídica e dificuldades para a defesa do jornalista, os objetivos do assédio judicial já haviam sido atingidos, não importando muito o resultado final dos processos”, destacou o órgão.


Dessa forma, o MPF pede que a igreja seja condenada a pagar indenização mínima de R$ 5 milhões por dano moral coletivo, a ser destinada a projetos de enfrentamento da violência contra jornalistas e de proteção da liberdade de imprensa.


Entenda o caso


A publicação de um post em junho de 2020 levou o jornalista e escritor João Paulo Cuenca a enfrentar uma das maiores campanhas de assédio judicial já registradas no país. Após postagem no Twitter, houve uma reação imediata e intensa.


Cuenca foi alvo de uma mobilização que pedia sua demissão do periódico alemão Deutsche Welle, onde trabalhava, resultando em sua dispensa sob a justificativa de incitação ao ódio – acusação que ele classificou como “um completo absurdo”. Paralelamente, passou a receber ameaças físicas e de morte, revelando a gravidade da perseguição.


A ofensiva ganhou contornos judiciais: 144 ações praticamente idênticas foram ajuizadas por pastores da Universal em 19 estados diferentes, pedindo indenizações que, somadas, ultrapassavam R$ 3,3 milhões. Para o MPF, o objetivo era, por meio da movimentação indevida da máquina judiciária, criar um cerco judicial para silenciar o jornalista, impor desgaste emocional e financeiro e produzir um “efeito inibidor” (chilling effect) sobre o exercício do ofício jornalistício e da atuação da imprensa.


Atuação do MPF


O caso Cuenca chegou ao MPF em 2020, quando a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) denunciou o ajuizamento de mais de 100 ações idênticas contra o jornalista. Desde então, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Rio de Janeiro trabalha no caso.


Em dezembro de 2022, o MPF realizou audiência pública sobre liberdade de imprensa e assédio judicial, evento que reuniu especialistas e entidades. Em janeiro de 2023, o MPF criou o Fórum de Monitoramento de Violações à Liberdade de Imprensa e Assédio Judicial, com participação de ABI, Fenaj, Abraji, Instituto Vladimir Herzog e outras entidades. E em junho do mesmo ano, o MPF apresentou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sugestões para identificar e monitorar processos de assédio judicial, culminando em recomendações sobre o tema.


Em fevereiro deste ano, o MPF ajuizou a ação contra a Igreja Universal, pedindo reparação pelos danos ao sistema de justiça e à liberdade de imprensa.


Ação Civil Pública nº 5008005-77.2025.4.02.5101


Informações: Assessoria de Comunicação Social / Procuradoria da República no Rio de Janeiro